A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

julho 13, 2006

Cemitérios, túmulos e obras de arte!

Filed under: História,Memórias — Augusto Martini @ 18:12
Tags: ,

Os cemitérios, apesar da aparência triste, podem guardar ricas surpresas para quem se dispõe a procurar. Principalmente nos mais antigos. Alguns podem ser considerados verdadeiras galerias de arte a céu aberto sendo possível encontrarmos peças e esculturas de artistas famosos. Em países como a França e a Argentina, alguns cemitérios são vistos como pontos turísticos que atraem viajantes do mundo inteiro, como por exemplo os Cemitérios de Pére Lachaise (Paris) e o da Recoleta (Buenos Aires). Eles são pontos turísticos muito visitados por possuírem entre seus “habitantes” figuras famosas que fizeram história nas artes ou na política. Mas certamente a arte presente nos túmulos destes cemitérios contribui e muita para a sua fama. 

Cemitério da Cansolação/SP

 

No Brasil também encontramos exemplo magníficos de arte tumulária. Isso pode ser facilmente constatado em uma visita nos cemitérios de São Paulo como o da Consolação, Araçá, Paulista e Morumbi. Outros estados como o Rio de Janeiro, Bahia e Recife, também possuem belos exemplares de arte tumulária. Mas, ao contrário do que ocorre em outros países são poucas pessoas que percorrem os cemitérios brasileiros para visitar túmulos ilustres ou que saibam apreciar as obras de arte que estes cemitérios muitas vezes escondem.

Muitos dos túmulos desses cemitérios foram feitos por artistas europeus e com materiais muitas vezes importados, tudo com o objetivo de elevar o nome das famílias abastadas. No cemitério da Consolação, em São Paulo, é possível encontrar obras de artistas como Brecheret e Luigi Brizzolara, ao lado de outros não tão conhecidos como Eugênio Pratti e Ramando Zago. 

Cemitério da Cansolação/SP

O final do século XIX e início do século XX foi um período bastante profícuo para a arte tumular brasileira, por reunir, ao mesmo tempo, famílias com recursos financeiros e disposição para construir túmulos suntuosos e artistas de grande talento que aqui moravam, principalmente italianos.

Hoje em dia, com o surgimento dos cemitérios-parque, a arte da escultura em túmulos praticamente acabou. Outro fator que leva a presença cada vez mais escassa de túmulos monumentais, é o alto custo dos materiais como o mármore, ferro e bronze, além da quase inexistência de artistas que se dediquem a este tipo de trabalho. Daí a importância em lutar para preservar estas obras de arte que ainda subsistem espalhadas pelos cemitérios, começando com o reconhecimento de seu inestimável valor estético. Mas como surgiram os cemitérios no Brasil? 

Detalhe do túmulo da Marquesa de Santos

No século XIX os problemas graves e urgentes enfrentados pelas cidades eram muitos. O aspecto sanitário era um deles.

Naquele tempo era costume enterrar os mortos nas igrejas. Mas isso apresentava graves inconvenientes sanitários, sobretudo nas cidades onde a população crescia e assim diminuía a oferta disponível de sepulturas. Nas igrejas, nos conventos e nas capelas particulares, eram sepultados os ricos fazendeiros e os representantes da burguesia urbana. Não se usava caixões e o defunto era enrolado numa mortalha e conduzido em uma padiola. E os mortos eram colocados em catacumbas dentro das igrejas. Não havia prazo determinado para se ficar com o defunto em casa e assim era comum que os mortos exalassem muito mau cheiro. Apesar dos grandes males sanitários que os sepultamentos nas igrejas provocavam, o preconceito para enterrar mortos em cemitérios construídos para tal fim era muito grande, tanto entre a população como entre os religiosos. 

Cemitério da Consolação/SP

Maria Inês Cortêz de Oliveira diz que os funerais representavam um ritual de nivelamento social. “A morte era uma das poucas chances, e a última, de estabelecer simbolicamente a igualdade entre brancos e negros, escravos e senhores, ricos e pobres. Viver mal, mas morrer bem, seria o lema. O pobre que consumia economias ou entrava numa irmandade para ser enterrado com dignidade talvez desejasse se igualar aos poderosos pelo menos uma vez na vida. Mas os poderosos repetidamente faziam da hora da morte uma ocasião de reafirmar a distinção social em que viveram, contratando inclusive os pobres para esse fim”. 

Cemitério da Consolação/SP

A construção de cemitérios públicos no século XIX era uma inovação urbana recente. Conseqüência do surgimento da cidade industrial, que acelerou a urbanização de forma descontrolada. Repentinamente os responsáveis pela higiene e salubridade públicas tiveram que tomar medidas sanitárias para as cidades e promover a remodelação do espaço urbano.

Vale a pena lembrar que a palavra cemitério tem origem latina, designa a parte exterior da igreja, isto é, o adro ou atrium, que é a área externa na frente da igreja. Primitivamente, o próprio conceito de igreja era também muito mais abrangente. Igreja significava não só seu interior, mas todos os espaços ao redor. Pouco a pouco esse conceito de igreja-cemitério como coisa única, foi se modificando e na segunda metade do século XIX esses dois conceitos já significavam coisas diferentes. Mesmo depois dos cemitérios construídos, havia ainda o problema de preconceito e discriminação com quem não era católico. Nas igrejas só eram sepultados os católicos. 

Cemitério da Cansolação/SP

No Brasil dos primeiros séculos, transferiu-se de Portugal o hábito dos sepultamentos nas igrejas. Mas mesmo dentro da igreja era nítida a discriminação, de forma que quem mais houvesse contribuído com donativos para a igreja teria o direito incondicional de ser enterrado mais próximo do altar-mor, e os ricos e endinheirados ainda chegavam a construir lápides para suas catacumbas.

As pessoas vitimadas por doenças contagiosas eram enterradas longe das igrejas. Foi em 1874 que o Bispo Frei Dom Manuel da Ressurreição, em São Paulo, resolveu adotar o mesmo critério para os indigentes escravos e suplicados, escolhendo um terreno pertencente à igreja para criar um cemitério.

Segundo Edmar da Silva, professor de História da Universidade Estadual de Goiás, pouco a pouco “os nobres do Império perceberam que os cemitérios permitiam mais condições de ostentação do que as lápides sepulcrais das igrejas, e então começaram a proliferar, nos primeiros cemitérios, os grandes mausoléus, com o objetivo único de mostrar a posição de destaque econômico, social e político dos seus ocupantes.”

“A morte agora é um grande espetáculo, e o cemitério passa a ser um lugar privilegiado para demonstrações de força e poder sem precedentes. Os segmentos dominantes exibem-se despudoradamente, expondo todo seu prestígio e imprimindo com vigor a sua marca. Opulência, ostentação, luxo, grandiloqüência são as palavras de ordem nesse momento. Triunfo, a palavra-chave. Artistas renomados são contratados para a produção de obras então consideradas notáveis, importando da Europa concepções novas de arte tumular.” 

Cemitério da Cansolação/SP

 “Quanto aos cemitérios populares, eram exíguos, sobrecarregados, geralmente abertos ou mal fechados, o que possibilitava que freqüentemente animais fossem ali pastar e até cachorros e porcos desenterrassem cadáveres.”

“Em alguns casos, eram depósitos de imundícies, não havia mausoléus ou monumentos, apenas simples placas indicativas do local em que cada morto estava sepultado, representadas pelas singelas lápides sepulcrais, ou apenas a cruz feita de galhos de árvore fincada na terra, demonstrando o contraste notável entre cemitérios e sepulturas.”

Nas fotos desse post, algumas preciosidades do cemitério da Consolação, em São Paulo. Foram feitas por mim, em 07 de julho de 2005. 

Cemitério da Cansolação/SP

Em Rio Claro, no cemitério São João Batista, existem muitos túmulos que devem ser preservados, quer pelo seu valor artístico, quer pelas personalidades ali sepultadas. Você os conhece? Faça uma visita com olhos de turista. Garanto que ficarão impressionados!

Anúncios

4 Comentários »

  1. Interessante o texto, mas porque não tem bibliografia para indicar, por exemplo a obra da Maria Ines de Oliveira que voce cita e não identifica a obra e a página, seria interessante mais rigos nesse sentido.

    Maria Aparecida Borges

    Curtir

    Comentário por Maria Aparecida Borges de Barros Rocha — fevereiro 28, 2012 @ 13:55 | Responder

  2. Muito interessante o texto, no entanto senti falta de identificação das obras de referencia, por que não tem essas indicações???????
    Maria Aparecida BOrges

    Curtir

    Comentário por Maria Aparecida Borges de Barros Rocha — fevereiro 28, 2012 @ 13:56 | Responder

    • Bom dia Maria Aparecida.
      Realmente faltam referências. Mas, escrevi o texto como referência de visita, para divulgação.
      Agradeço pela visita.
      Augusto

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — março 1, 2012 @ 9:43 | Responder

  3. q medo neeeee

    Curtir

    Comentário por luciane — março 28, 2012 @ 13:08 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Obrigado por assinar o meu blog! Espero que goste!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: