A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

maio 5, 2006

Um Pouco Sobre Meio Ambiente, Edmundo Navarro de Andrade e a Floresta Estadual – parte 1

Filed under: História,Memórias — Augusto Martini @ 18:40
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Ultimamente, a preocupação com a questão florestal tem crescido significativamente em todos os meios. Todavia, o preocupar-se não levará ao encaminhamento definitivo do problema do rareamento dos recursos florestais e da degradação do meio ambiente.  Somente pensar o problema não nos leva para lugar algum. É preciso agir. A voracidade pelo lucro imediato presente na maioria de nossas sociedades apóia-se unicamente na dimensão econômica da relação homem/meio ambiente, cujas conseqüências apresentam-se de forma assustadora para as gerações futuras. Este tipo de atitude mudará somente quando percebermos quando esta autodestruição coletiva vir a representar uma ameaça iminente para cada um em particular e para a totalidade da sociedade.  Isso somente será revertido se e quando houver a ampliação do conhecimento, através da cultura, o que levará a humanidade a interferir na percepção e na valorização das relações de interação do Homem com a natureza.

Os países mais desenvolvidos, que, por sua vez são os maiores consumidores de produtos florestais, atualmente estão exigindo que os mais pobres preservem suas florestas. No entanto, com sua sede de cobiça e consumismo, continuam importando – e pagando caro – pelas madeiras extraídas das florestas tropicais.

O desenvolvimento “a todo custo” das nações mais ricas da Europa, comprometeu de modo irreparável sua cobertura arbórea.  Mas isso não deve ser levado em conta e nem justifica a depredação florestal praticada nos países subdesenvolvidos, a maioria deles situados em região tropical, pois, tal destruição, além de não ser motor gerador de riquezas sustentável para os beneficiários, provoca danos irreparáveis à biodiversidade, colocando em risco de extinção diversas espécies vegetais e animais.

Muitas são as normas legais que tratam do assunto florestal. Mas o que se constata é o descumprimento de tais normas, e isto vem acontecendo sistematicamente, não apenas por desconhecimento de muitos, mas também, entre outras coisas, pelo imediatismo com que costumeiramente se dá a exploração econômica das florestas.

Freqüentemente tais normas são descumpridas, às vezes pela inoperância das autoridades competentes, outras tantas pela impotência e descaso. Por outro lado, a grande maioria da população é desinformada, e como conseqüência, mostra desinteresse e descompromisso. Mesmo quando a prática predatória é evidente, não se manifesta e nem colabora com as autoridades. Por outro lado, o infrator quase sempre fica impune e, portanto, permanece sem ter sua sensibilidade abalada com o desequilíbrio que provocou.

Quero chamar a atenção para que o legado do trabalho de toda uma vida dedicada a Silvicultura – como foi a de Edmundo Navarro de Andrade – não entre nas trevas da história como aconteceu com o acervo documental do Horto Florestal de Rio Claro, sede do Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, e base do cientista. Toda a organização da Floresta Estadual (antigo Horto) é o resultado de seus esforços. Em 1909, Navarro deu inicio à construção do Horto. Foi sua a idéia de tentar a aclimatação dos eucaliptos no Brasil, obtendo sucesso após anos de experiências.

Foi Navarro também o pioneiro no Brasil nas atividades de reflorestamento e de preservação florestal. Durante longo tempo, desenvolveu um intenso trabalho de pesquisa para encontrar meios de suprir as necessidades da Companhia Paulista de Estradas de Ferro sem destruir as matas nativas do estado. A Companhia, proprietária do Horto, nele buscava dormentes, mourões, postes, lenha para queimar, enfim, madeira que pudesse atender ao funcionamento da ferrovia. Tais pesquisas tornaram o Horto uma referência internacional para estudos genéticos envolvendo o eucalipto.

Na Floresta Estadual há também um acervo documental específico – o herbário. Grande parte dele veio da Austrália. Foi um presente dado ao Edmundo pelo cientista H. J. Maiden. Navarro foi um cientista conhecido mundialmente, publicou mais de uma dezena de livros, o que o levou a ocupar uma das cadeiras da Academia Paulista de Letras, juntamente com Monteiro Lobato, de quem se tornou amigo pessoal.

Foi ainda resultante de seu trabalho a criação do Museu do Eucalipto. Originalmente composto de dezesseis salas nas quais eram comparadas, através de quadros, gráficos e objetos, as utilizações do eucalipto e de outras essências florestais, o museu exibia peças como a Medalha Meyer, que Navarro recebeu em Washington, em julho de 1941, diversos móveis entalhados em eucalipto, e a história das primeiras pesquisas com o eucalipto citriodora. Além disso, o museu guardava ainda muitas outras preciosidades, como as informações sobre a cultura da laranjeira; exemplares de animais taxidermizados que habitavam as florestas de eucalipto do estado; bumerangues de mais de 800 anos trazidos da Austrália (tais bumerangues foram presentes dados a Armando Navarro Sampaio, sobrinho de Edmundo, quando esteve na Austrália em 1952. Sampaio deu continuidade aos trabalhos do Serviço Florestal após a morte do cientista); desenhos em pastel seco das flores e das folhas das essências florais do estado de São Paulo; amostras de outras madeiras nacionais; elementos de seus estudos sobre a broca do café e muito mais. Como cientista, Navarro não foi simplesmente um colecionador de coisas: ao criar o Horto Florestal, organizar o Museu do Eucalipto, o Herbário e o Arboreto, deixou-nos um verdadeiro centro cultural no mundo da silvicultura que precisa ser preservado. O trabalho feito por Navarro não visava lucros imediatos. Era um investimento para o futuro.

Mas nem sempre o Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro foi exaltado pela sua grandeza. Ele não foi poupado, principalmente no início de sua existência, pela crítica dos que se auto-intitulavam “nacionalistas”. Segundo eles, tudo ali estava errado: desde a escolha da essência para a formação de suas matas e a distância adotada nas suas plantações, até as diferentes aplicações que se dava às madeiras. Outros agrônomos criticaram o plantio em larga escala do eucalipto em terras brasileiras. Existia uma propaganda em volta do eucalipto, acusado de secar o solo. Por anos ele havia sido plantado em áreas insalubres, pois acreditava-se que tinha o poder de tornar áreas alagadas em locais habitáveis. É que a retirada de água é proporcional ao tamanho da sua árvore nos primeiros anos de crescimento.

Segundo Navarro, aconteceu com o eucalipto, em nosso país, um fato verdadeiramente interessante: durante décadas, ele foi considerado como a única árvore capaz de reconstituir as nossas florestas, mas quando a Companhia Paulista resolveu estabelecer pela primeira vez no Brasil a cultura florestal do eucalipto com rigor científico, foi como se ele tivesse perdido todas as suas virtudes.

Toda a crítica partia de alguns agrônomos e de muitas pessoas leigas. Os ataques começaram por condenar a exígua distância adotada para as plantações. Porém, tudo o que foi feito no Serviço Florestal, foi conseqüência de anos de pacientes estudos e observações no Brasil e em todos os países em que existiam culturas de eucaliptos. Para Navarro, todo o tempo gasto com os experimentos deveria ser contado em dobro, devido às muitas dificuldades encontradas e que algumas vezes, tinha que ir estudar fora do país o que se fazia no ramo do reflorestamento. A crítica, porém, não lhe concedia o direito de entender alguma coisa de um assunto que ele vinha estudando na teoria e na prática durante anos. Faziam-lhe a injustiça de supor, ou de querer que os outros supusessem, que tudo o que se tinha feito era por puro palpite.

No período em que Edmundo Navarro de Andrade esteve envolvido com o Horto Florestal (ele faleceu em 1941), e até a década de 60, o museu manteve suas características originais. Foi a época áurea do Horto. Com a estatização da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e mais tarde com sua incorporação num organismo mais amplo e menos diferenciado chamado FEPASA (A FEPASA – Ferrovia Paulista S/A – foi criada pelo Governo do Estado de São Paulo através do Decreto 10.410, em 28 de outubro de 1971, a partir da fusão e centralização administrativa, numa única instituição, das cinco ferrovias estatais sob o seu controle: a Estrada de Ferro Araraquarense, a Estrada de Ferro São Paulo-Minas, a Estrada de Ferro Sorocabana, a Companhia Mogiana e a Companhia Paulista. Em 1998, visando à redução do déficit público estadual, o Governo Paulista transferiu a FEPASA para a União, sendo incorporada à RFFSA – Rede Ferroviária Federal S.A. – recebendo o nome de “Malha Paulista”. Incluída no PND – Plano Nacional de Desestatização, a concessão para a exploração da Malha Paulista foi transferida à FERROBAN, que, em 1º de janeiro de 1999, assumiu a gestão e a exploração comercial das linhas e dos serviços remanescentes. Parte do patrimônio imóvel e rodante da Malha Paulista permaneceu sob controle da União, que está aos poucos leiloando-o, em decorrência do processo de liquidação da RFFSA. Da antiga FEPASA, permanecem ainda sob controle do Governo do Estado de São Paulo os serviços, bens rodantes e imóveis das linhas de trens de subúrbio situadas na Região Metropolitana da Grande São Paulo, cujo patrimônio foi incorporado pela CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, por quem é atualmente operado), o Horto começaria seu declínio. Tanto é verdade que, no início dos anos 70, a comunidade rio-clarense já manifestava a sua insatisfação com a situação de decadência em que ele se encontrava. Muitas pessoas, inclusive de forma anônima, lutaram pela sua manutenção e preservação, dando início a uma campanha visando o tombamento, pelo CONDEPHAAT, como meio de preservação, o que viria a ocorrer somente em 1977.

Na época, havia uma grande esperança de que o tombamento trouxesse um uso correto para o Horto. Infelizmente isso não aconteceu. De um lado devido às insuficiências operacionais do próprio órgão de tombamento e de outro pelas influências dos mais diversos interesses de pessoas que desejavam dispor do seu controle. Seu declínio teve continuidade: o lago, outrora atração de lazer dos cidadãos, perdeu sua função e uso; acabaram-se os passeios de charretes; as linhas de ônibus regulares pararam de circular; o restaurante foi abandonado. E acabou-se com o que consideramos mais importante – as possibilidades de visitas ao Museu. O Jornal “Cidade de Rio Claro” de 23 de janeiro de 1974, estampava a manchete: “Horto está abandonado”. A matéria trazia a informação de que o museu estava fechado para reforma, porém, esta estava interrompida já há muito tempo.

Vinte e três anos depois, no ano de 1997, com a FEPASA convertida numa imensa sucata e estando para ser privatizada, um de seus bens era justamente o Horto Florestal. Falava-se em anexá-lo a algum órgão, vendê-lo, abandoná-lo. A comunidade rio-clarense mais uma vez mobilizou-se. Criou-se o “Movimento S.O.S. Horto Florestal”: milhares de assinaturas chegaram ao governo do estado e, assim ele foi transferido, em 1998, para a Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Mas a recessão, as crises econômicas, as insuficiências de recursos etc., fizeram com que o Horto continuasse ainda que com seus rumos bastante incertos.

No ano de 2002, o Horto Florestal mudou de categoria, por força do Decreto 46.819 de 11 de junho de 2002, passando a se chamar Floresta Estadual “Edmundo Navarro de Andrade” (FEENA), cuja área  de 22.305.338,0255 metros quadrados ou 2.230,5338 hectares, abrange os municípios de Rio Claro e Santa Gertrudes. Antigamente a área da Floresta era maior. Desde a década de 20, com o crescimento da cidade, muito se perdeu para dar lugar à formação de vários bairros. Nessa nova modalidade, está aos cuidados do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, com todo o seu acervo histórico, científico e cultural. A promulgação deste decreto, facilitou a inserção da FEENA no Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, que estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação, determinados na Lei nº 9985, de 18 de julho de 2000, posteriormente regulamentada pelo Decreto nº 4340, de 22 de agosto de 2002.

Mas as inquietações ainda continuam. A floresta tem demasiada proximidade com a civilização. São oito quilômetros em contato com a malha urbana. O que se vê nessas áreas é muito desrespeito: lixo, descuido e invasão. Há poucas pessoas que se preocupam em fazer da floresta a continuidade de sua casa.

Toda aquela área enumerada no decreto realmente existe? Onde a Floresta começa e termina? Porque ela não está adequadamente cercada? Por que razão tem ocorrido tantos incêndios? E o que dizer da preservação das edificações (Solar Navarro de Andrade, Núcleos Coloniais, Sobrado Amarelo, Capela de Santo Antônio dos Eucaliptos, etc.), talhões de eucalipto e do próprio Museu? As notícias recentes tem sido uma afronta a Edmundo Navarro de Andrade: dentro da Floresta crimes são cometidos; ela é ponto para a circulação de drogas e desmanche de veículos, e é também um grande espaço para jogar lixo e para invasões.

Se a sociedade se mobilizar, é possível reorganizar a Floresta e torná-la viável como nos anos de glória da Paulista. Isso pode soar como um grande desafio, mas, se os cidadãos rio-clarenses colaborarem, há condições para tanto. Eu estou fazendo a minha parte. E você? Está fazendo a sua?

Leia a parte 2

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