A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

dezembro 16, 2005

Natal…

Filed under: Memórias,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 17:22
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Dezembro. Atualmente passo-o num estado de angústia latente, não sei porquê. Ou sei, em parte. Detesto o consumismo agravado até aos limites. Me dá má impressão ver as falências domésticas, adivinhar os Janeiros, Fevereiros e Marços de penúria escusada que este mês custa a tanta gente, como se fosse obrigatório gastar tudo quanto se ganha (mais até, muito mais, colocando todas as compras nos malditos cartões de crédito, esses falsos amigos). Me dá tristeza ver quem não pode gastar nada e gostaria de poder. Quase sempre são pessoas que desconhecem por completo o vazio que fica no dia 26, depois de rasgados os papéis dos embrulhos e uma vez silenciado o frenesi de exclamações de um prazer efêmero. Custa-me ver os excessos gastronômicos de uns; a fome de outros. E a hipocrisia!

Mas não sou nenhum fundamentalista anti-Natal. Gosto do que ele para mim representa  – eu tenho Fé – e assinalo – trocando pequenas lembranças com os meus amores. Afinal, vivemos num mundo consumista. Aos que não estão sempre comigo faço algumas visitas de Papai Noel. Em minha casa sempre houve um almoço alegre no dia 25, nunca fizemos ceia. Agora, com meus pais falecidos, comemoro com irmãs e sobrinhos. Sem exageros. E com um motivo que não perco de vista, que é festejar o nascimento de Cristo. Afinal, fui criado na fé cristã, apesar de não ser freqüentador assíduo de igrejas.

Hoje fui presenteado com um CD da Elis Regina, a quem eu adoro! Obviamente isso nada teve a ver com o Natal. Mas já é Dezembro… e reparei que a tal angústia latente foi enxotada para mais longe e a música trouxe-me um sentimento bom, de alegria simples. Há uma música em especial no CD que a pessoa que presenteou-me diz conter imagens que lhe vêm à cabeça quando me vê de longe. Achei isso lindo! Partilho-o aqui com vocês, espero que um dia todos consigam ouvir a música (que se chama “Casa no campo”, que é do Zé Rodrix e Tavito), e dedico-a aos olhares de todos os enamorados sobre os seus amores, quando eles passam.

Esse não é o primeiro texto que escrevo sobre o Natal. Já escrevi uma vez, não nessa coluna, e alguns leitores mandaram-me e-mails desaforados. Na crônica comentei que não aprecio o período natalino, e eles, os leitores, acharam, uns, que escrevi isso “da boca pra fora”, pra fazer charme de sujeito do contra. Outros acharam que não gosto mesmo e isso se deve a algum trauma, algum problema na infância. Por fim, alguns atribuíram o texto a eu ser simplesmente um chato (ainda bem que não de galochas. Sou um chato moderno).

Não é por aí. Minha invocação não é exatamente contra o Natal. O que eu detesto são os dias que o antecedem. Todo mundo parece que andou tomando ponche de adrenalina: é tudo no maior vexame, na maior carreira, as ruas se entopem de gente e de carros. E aí não é só o Natal: sou invocado também com carnaval, São João, etc.. Não sou baiano mas aprecio que o mundo gire a seu tempo, na santa paz, que eu possa sentar num boteco e levar um papo, sem correr o perigo de ser atropelado por uma família inteira que foi às compras natalinas, comprar o que não precisa com a grana que não tem.

Natal é uma época em que a insensatez faz fila para desperdiçar tempo e recursos. Todo mundo se amontoa em shopping centers para comprar presentes, por motivos fúteis na maioria dos casos: por hábito arraigado, por cobrança dos filhos, por manipulação da publicidade. Em suma, por “pressão da época”.

Enquanto isso, governos sem visão de longo prazo (nem mesmo médio prazo) se escoram no populismo para desperdiçar energia elétrica. E isso em tempos de “vacas magras”, de alertas críticos sobre vários temas, de periferia mal iluminada à custa de “gatos”…

Não sei que marketing visionário criou e exportou o Papai Noel, mas fez um trabalho exemplar. Contra o Natal e sua ditadura consumista, ninguém se levanta. Todo mundo aceita-o como fato da vida, amparado pelo 13° salário (quando o há).

Na selvageria social que é o Brasil, o fim de ano poderia ser um respiro nas tensões, uma reavaliação do papel de cada um na construção de um País mais humano. Em vez disso, o fim de ano é moldado para extrair dinheiro adicional de quem possa pagar. Como toda moeda tem dois lados, o fim de ano se torna também um foco de insatisfação extra para quem não pode pagar nada. Quem não pode nem pensar em comprar um peru, faz o quê? Agradece a Deus?

Apesar da minha indignação com esta data que se convencionou num rito eminentemente comercial, desejo a todos que aproveitem uma ceia sem transgênicos e, se puderem, sem carnes. Que do Natal surja uma vontade de refletir sobre o que passou e o que está por vir. Curtam muito a passagem do fim do ano ao ano novo e mentalizem coisas boas para todo o cosmo.

Namaskár para todos!!! (para quem não conhece essa expressão, ela quer dizer: a divindade que está em mim, saúda a divindade que está em você com toda paz do meu espírito e amor do meu coração).

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