A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

novembro 18, 2005

Arembepe: Uma Visão do Paraíso!

“Quem não ama o que faz, dá pouco de si.
Não se esforça. Bate cartão, cumpre o protocolo.
O amor move gestos e intenções, em qualquer profissão.
Mais ainda naquelas em que se lida diretamente com pessoas.
Que são diferentes de livros, armários, números…
Amor é vital, no trabalho, na vida, em tudo.
Ao ver o rosto encantado e feliz da pequena aluna
sob o olhar atento e carinhoso da professora,
quem há de negar a importância do amor na educação?”

(Rubem Alves – Psicanalista, Educador e Escritor)

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Aldeia Hippie em Arembepe


Arembepe! Se é que existe o paraíso, esse é o lugar! Ou pelo menos tem tudo para ser uma filial dele. Em minhas férias em Salvador, fui conhecer a Aldeia Hippie de Arembepe. Ela começou a surgir no final dos anos 60, quando foi criada uma comunidade baseada em um diferente estilo de vida: em amor e liberdade de expressão e busca pela ecologia, remodelando valores antigos.

A Aldeia Hippie, além de ser uma das poucas restantes no mundo, é um ambiente em perfeita harmonia com a natureza, sem luz elétrica ou quaisquer outros apetrechos tecnológicos. É abastecida com água de poço, e quase nenhum conforto, se considerarmos o ambiente urbano. Porém é capaz de proporcionar uma imensa paz interior. Ali cultiva-se a procura por si e pelos outros, o dar as mãos, em um ambiente que busca a integração dos povos e a harmonia. A aldeia tem como principal atividade o artesanato, porém a sua representação sócio-cultural atinge a quase todos os campos, desde a música até a luta em defesa da ecologia, com campanhas defendidas a unhas e dentes pelos moradores da aldeia, como é o caso do SOS Rio Capivara e os problemas ocasionados pelo lixo.

Na Aldeia, olhando o horizonte, vi barquinhos de pescadores em alto mar. Qualquer um pode apreciá-los subindo nas dunas. Por trás delas, famílias inteiras traduzem na rusticidade um meio de viver em maior contato com a natureza. São os cabeludões: artesãos, moradores da Aldeia de Caratingui, que não ligam para o conforto nem para os eletrodomésticos. Como já disse, não há energia elétrica na Aldeia. Viver nesta tribo baiana é se acostumar com o aroma de peixe frito à beira do mar calmo e cristalino, que se mistura com a brisa da tarde, que de vez em quando traz um leve cheiro de maconha no ar.

Os banhos no Rio Capivara, de águas avermelhadas, é uma das seduções do lugar. O torpor adormece e aguça os sentidos neste belo vilarejo Hippie perdido no tempo e nos acordes de vários violões, que, imagino, sempre embalam as noites na praia e na aldeia. É comum você encontrar estrangeiros que ali chegaram, se encantaram e passaram a habitar o lugar.

Arembepe, que pertence ao distrito de Camaçari, foi descoberta pelos alternativos no final dos anos 60, época em que famosos como Janis Joplin, Roman Polanski, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros, passavam longas temporadas por ali, decifrando as praias desertas, nadando nus em piscinas naturais formadas por barreiras de recifes e observando a Lagoa do Rio Capivara. Mais de três décadas se passaram e o cenário continua o mesmo, minuciosamente preservado.

Além da primeira comunidade Hippie do Brasil, ali também está instalada uma das bases do projeto TAMAR, com trechos de praias restritos para a desova das tartarugas marinhas. As praias mais freqüentadas são a Arembepe (dos Hippies) e a Praia do Piruí, ambas com piscinas naturais na maré baixa e ótimas para os surfistas na maré cheia.

Na Vila Hippie conheci muitas pessoas especiais. E quero falar um pouco da mais especial delas. É uma história de amor e desapego. Não uma história de amor convencional, com seus encontros e desencontros, amores impossíveis ou proibidos, onde duas pessoas enfrentam grandes dificuldades para ficarem juntos no final. Não há mocinho. Há somente a mocinha. É uma história do amor de uma mulher que não sabia o que sentia. Como diz o poeta: “amar se aprende amando”; e foi assim que ela – a Graça, se transformou numa adorável professora (hoje também diretora) e descobriu a sua verdadeira vocação: ensinar as crianças (filhos da Aldeia, os seus próprios filhos e os filhos das lavadeiras que se acabam à beira do Rio Capivara, deixando os filhos a mercê de tudo), a amarem a natureza que ela também amava, a apreenderem a ler e escrever e a crescer como gente.

Fachada da Escola de Arembepe

Fachada da Escola de Arembepe

Impelida ao magistério pela vontade e também pela necessidade de tirar as pessoas da ignorância em que viviam, começou a trabalhar com as crianças locais e os moradores ribeirinhos, ensinando os princípios de preservação e conservação da natureza, em especial a não poluírem o Rio Capivara. Fundou a “Escola Menino de Luz”. A princípio, um dos moradores da Vila cedeu o quintal de sua casa para que ela funcionasse. Depois, com os resultados foram positivos, cedeu a casa toda. Como qualquer outra casa da Vila, ela é coberta de palha de coco, as paredes são rústicas, tem cerca de bambu e chão de terra batida. Nela, desenvolve trabalhos com abordagem Waldorfiana, que aprendeu em São Paulo. E o começo dessa história vale a pena ser contado. Foi há muitos anos atrás. Chegando na capital paulista pela primeira vez, sentiu-se oprimida em meio a tanta gente, trânsito, barulho e poluição, tudo tão longe de sua realidade. Logo que desceu no aeroporto Congonhas e alcançou a rua, ficou tonta e caiu no chão. Precisou de ajuda para se levantar. O choque com a metrópole foi grande e a cidade a engoliu. Mesmo assim, conseguiu ficar um ano. Hoje, na “Menino de Luz” aplica tudo o que assimilou.

Conheci a Escola nesses dias em que estive em férias. Chegando na Aldeia, ouvimos a conversa das crianças, olhamos por cima da cerca de bambu e logo recebemos o convite de Graça: Podem entrar! Sejam bem vindos! Assim que pisamos na Escola, veio se aproximando uma garotinha que, dirigindo-se a mim disse: tio, cheira o meu cabelo. Lavei com Xampu!!! Ela acabara de tomar banho. Um pouco mais à frente, quase uma dezena de crianças estavam tomando uma sopa suculenta, sentadas em troncos, com tábuas servindo de mesa. Tudo na Escola, assim como na Aldeia, é aproveitado. Procura-se retirar o mínimo necessário da natureza.

O dinheiro da merenda escolar vem de doações de comerciantes, indústrias locais e outras entidades. Esse ano Graça conseguiu comprar uma carroça e um cavalo. A carroça, com uma armação de ferro recoberta de plástico azul, vai em busca das crianças. Quando volta, toda festiva e cheia dos pequenos habitantes, parece um pedaço de céu ambulante com o plástico azul balançando ao sabor do vento.

Uma outra professora também presta serviços na Escola, além de Graça. Pelo trabalho que desenvolvem, recebem mensalmente uma quantia simbólica.

Escola Arembepe

Escola Arembepe

Elas expõe pelas paredes da Escola os trabalhos de crianças que por ali passaram. Os desenhos dos dois filhos de Graça também estão ali. E têm mais de uma década! Hoje seus filhos já são adultos.

Graça e sua auxiliar também dão aulas de reforço escolar para os alunos do Ensino Fundamental. No contato com as crianças ela descobre que a lição mais importante não está nos livros escolares, mas no coração, o que, imagino, a leva a adiar outros sonhos, enfrentando a todos na defesa do ideal que a acompanhou por anos, ou seja, mostrar aos seus alunos que cada um pode se tornar melhor do que já é. Graça é uma professora que trabalha com o coração.

Naquela tarde, quando saí da Aldeia Caratingui, o professor que em mim habita sentia-se renovado. Percebendo que escolheu a profissão certa.

Isso que escrevi sobre Graça, talvez nunca chegue até ela. Talvez o mundo nunca lhe renda homenagens. Mas tenho certeza que ela foi uma professora que mudou destinos.

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2 Comentários »

  1. […] esse post dela, lembrei de um que escrevi e que falo de uma professora, a Graça, da aldeia Arembepe, no litoral bahiano. Na Vila Hippie conheci muitas pessoas especiais. E nesse post falo um pouco da […]

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    Pingback por Sobre estudar em Escola Pública e outros temas… « A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — dezembro 17, 2010 @ 18:12 | Responder

  2. […] Ilustrar uma das coisas que gostei de reler foi o post Arembepe: uma visão do Paraíso! onde falo de minha visita a aldeia hippie de Arembepe, na Bahia, em […]

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    Pingback por Revisitando o “A Simplicidade das Coisas” | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — setembro 30, 2014 @ 16:26 | Responder


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