A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

outubro 27, 2005

SORRIA: VOCÊ ESTÁ NA BAHIA!

Filed under: História,Memórias,Viagens — Augusto Jeronimo Martini @ 18:37
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As palavras da frase acima foram as que mais ouvi nos setes dias que passei em Salvador. Todos os vendedores/ambulantes dizem isso ao se aproximarem. Minha viagem à Bahia era sonhada há muito tempo, e para falar a verdade, quando finalmente se realizou, não foi bem o que eu esperava. Foi muito melhor. Encontrei em Salvador um povo que parece estar sempre de bem com a vida, exorcizando o stress, cantando, dançando, e curtindo as coisas boas de cada dia, uma de cada vez, como todo mundo deveria fazer. Imagine um lugar alegre: Assim é Salvador.

Foi nas terras Baianas que Pedro Alvarez Cabral avistou, em 22 de abril de 1500, o Monte Pascoal. E em pouco tempo, Salvador iria se transformar num dos mais importantes centros históricos e culturais do outro lado do oceano, a tal ponto que em 1763 a cidade já era o maior centro urbano do hemisfério sul. A parte central de Salvador divide-se em Cidade Alta, construída sobre colinas, e Cidade Baixa, à beira mar.

As casas do Pelourinho abrigavam todo tipo de atividade colonial, e nem é preciso muito esforço para imaginar o lugar naquela época, quando ricos senhores de engenho e comerciantes, iam ao Pelourinho para negociar, comprar ou vender de tudo, inclusive seus escravos. Salvador foi o maior e mais importante porto de chegada no Brasil dos escravos trazidos da África, o que explica que cerca de 80% dos moradores da cidade são descendentes da raça negra. E as pessoas são lindas! Não devem deixar de ser visitados no Pelourinho o prédio da Fundação Casa de Jorge Amado e o Museu da Cidade, que são na verdade os dois principais e maiores prédios do Largo do Pelourinho. Toda área vem sendo submetida a um cuidadoso trabalho de preservação histórica aliado a uma inteligente exploração turística. Isto transformou o local num agradável shopping a céu aberto, onde estão dezenas de restaurantes, lojas de artesanato, museus, casas de espetáculos musicais, etc..

Praticamente todas as noites acontecem apresentações de artistas e ritmistas locais, e um dos programas mais agradáveis para um turista é percorrer as ruelas seguindo o som da música ou sentar numa das mesinhas, pedir um bom prato de comida baiana e deixar a noite passar sem pressa alguma. Situado ao norte da cidade,

O Farol de Itapoan não está aberto à visitação, mas é interessante ir até lá, onde pode-se passar quase por baixo, sob os arcos de sua estrutura de apoio.

As praias da cidade são belas de Salvador (Itapoan perde de longe para a maioria delas), mas é impossível não sentir vontade de ficar um pouco em Itapoan e lembrar daquela canção de Toquinho e Vinicius de Moraes: Passar uma tarde em Itapoan, ao sol que arde em Itapoan, ouvindo o mar de Itapoan, falar de amor em Itapoan…

O Elevador Lacerda, é a mais importante e movimentada ligação entre Cidade Alta e Cidade Baixa. Inaugurado em 1868, substituído em 1928 por um sistema elétrico e novamente reformado há poucos anos, este é um daqueles passeios que ninguém pode deixar de fazer. Dura apenas cinco segundos. Todos os dias, mais de 50 mil pessoas vencem o desnível de 85 metros entre as duas partes da cidade num de seus quatro modernos elevadores. A viagem não é grátis, mas o bilhete é tão barato (cinco centavos!) que seu custo é praticamente simbólico. Pena os elevadores não serem panorâmicos.

Outro lugar que vale a pena conhecer é a Lagoa de Abaeté. O cenário formado por águas cristalinas, areias brancas e rica vegetação forma um conjunto que nos faz lembrar alguma miragem dos contos de mil e uma noites. Mesmo assim é bom saber que apesar da aparência tranqüila suas águas são perigosas, e por isso só é recomendável nadar junto às margens. O contorno da lagoa foi recentemente reformado e agora tem uma boa área de lazer pavimentada, com bicicletas de aluguel e um ótimo bar restaurante com música ao vivo. Como estive lá durante a semana, não vi tanta movimentação. Mas um bem instruído guia passou tais informações.

A melhor forma de vencer as ruas íngremes com calçamento irregular do pelourinho é usar um bom sapato à prova de escorregões. Lá existem ótimos restaurantes, mas o do SENAC é o melhor deles. Num ambiente informal de um antigo casarão restaurado, serve ótimas refeições a preço fixo, com sobremesas incluídas. Nele, funciona uma escola que forma cozinheiros e garçons. Mas quem estiver à procura de um restaurante super especializado em comida baiana pode ir direto ao Restaurante da Dadá. Sua proprietária (a Dadá, é claro), ao longo dos anos ficou conhecida como uma das melhores quituteiras baianas da cidade, e hoje tem uma rede com diversas casas. São caros, mas dizem que vale a pena. Eu não me atrevi a ir em nenhum deles. O melhor e maior de todas está situada praticamente dentro do mar, na praia de Patamares (cerca de 15 km do centro).

Já quem por acaso sentir um súbito desejo por um Acarajé ou Vatapá não vai ter dificuldade nenhuma em encontrar, pois eles são vendidos por baianas vestidas a caráter, em qualquer ponto da cidade.O melhor que comi foi o Acarajé de Cira, na barraca localizada na praia de Itapoan. Atualmente três baianas disputam o título de melhor Acarajé de Salvador. Indiscutivelmente o de Cira é o melhor, em minha opinião.

Para aquelas comprinhas que não podem faltar em nenhuma viagem, recordações, artesanato, redes, camisetas, instrumentos musicais, estátuas das divindades religiosas, etc., o lugar certo é o Mercado Modelo. O imenso casarão em estilo neoclássico foi construído na segunda metade do século 20, sobre o mar, no mesmo local onde funcionava a alfândega. Reformado há poucos anos, agora oferece um ambiente agradável e envolvente, onde se pode passar horas apreciando toda a rica variedade artesanal da Bahia. No segundo andar há também um ótimo restaurante especializado em culinária Baiana.  O Mercado Modelo fica localizado na Cidade Baixa, a 100 metros do Elevador Lacerda.

Já quem preferir umas comprinhas nos tradicionais shoppings não vai ficar sem opções. Basta ir ao Shopping Iguatemi (o maior da cidade), Shopping da Barra (o de melhor localização, próximo ao litoral e perto do Morro do Cristo, onde estão diversos bons hotéis) ou Aeroclube Plaza Show (shopping a céu aberto, que já virou point). Situado em frente ao mar, na praia de Armação, costuma apresentar shows com bandas de música popular baiana.

A melhor forma de conhecer o litoral de Salvador é usando o transporte coletivo e caminhando. Nele estão o Farol da Barra e o Forte Santa Maria, onde estão antigos canhões enferrujados deixados pelos portugueses. Na época colonial os portugueses mantinham ali centenas de engenhos de cana de açúcar e tabaco. Junto com o Pau Brasil e o ouro, estas riquezas muito contribuíram para as finanças da coroa portuguesa assim como para despertar a cobiça de holandeses e franceses. Violentas batalhas foram travadas naquelas águas pelo controle das terras brasileiras, todas devidamente rechaçadas pelos portugueses. E estes canhões, embora hoje aparentem ser peças de museu, tiveram muito trabalho naqueles anos.

Dizem que Salvador tem 365 igrejas, uma para cada dia do ano. Na verdade o  número é menor, mesmo assim existem dezenas e dezenas. Parece que oficialmente são 165. Nenhuma visita à Salvador seria completa sem conhecer algumas destas obras primas. Comece pela Igreja de São Francisco. Construída entre 1708 e 1750, seu interior representa o ideal português de uma igreja dourada. Embora o ouro que recobre seu interior não tenha valor comercial é quase impossível conter uma exclamação de espanto ao entrar neste templo santo e ver seus tetos e paredes douradas. Depois visite a Catedral Basílica. Situada no Terreiro de Jesus, construída entre 1657 e 1672 com paredes revestidas de mármore, ela está situada numa das partes mais altas da cidade, e por isso conta-se que era avistada de longe pelos navios que se aproximavam da Baía de Todos os Santos, lhes oferecendo proteção e bênçãos ao chegar ou partir. Nela foi ordenado o padre José de Anchieta.

Seguindo depois pela Rua Alfredo Brito, e ultrapassando o Largo do Pelourinho, chega-se à Igreja do Santíssimo Sacramento (1737). Sua imensa escadaria frente à fachada principal lhe transforma num endereço marcante, ideal para fotos dramáticas. Tem cinco altares em estilo rococó e foi próximo a ela que, em 1549, Tomé de Souza fundou Salvador, sobre uma colina estrategicamente situada de frente para o mar. Conheça ainda a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída por escravos e negros libertos, com torres de influência indiana e fachada em estilo barroco e rococó.

Partindo da cidade baixa e seguindo na direção oposta à Barra chega-se em poucos minutos à Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, padroeiro dos baianos, e famosa pelo ritual de lavagem de suas escadas. Embora menor que as anteriores ela também não pode faltar em nenhum roteiro. Com certeza você será assediado por vendedores lhe oferecendo as tradicionais fitinhas coloridas do Senhor do Bonfim. Coloque uma delas no pulso e leve também para presentear seus amigos. Segundo a tradição, essas fitinhas devem ser usadas até caírem por conta própria, quando então aquele seu desejo mais íntimo se tornará realidade. Na verdade os baianos dizem que três nós devem ser atados quando colocadas ao pulso, devendo-se fazer um pedido para cada um deles. Como eu tinha mais que três pedidos, amarrei duas fitas. Após a visita à igreja do Bonfim, siga na direção do litoral e aproveite para conhecer mais um dos fortes desta região, o Forte Humaitá, totalmente recuperado pelo exército, e agora aberto à visitação pública.

E ao cair da noite, o endereço certo para encerrar um dia em Salvador com uma experiência memorável é jantar no excelente Solar do Unhão, que apresenta ótimos shows de música e dança folclórica. Isso foi o que me disseram. Eu não fui, mas dizem que é simplesmente imperdível!

Um segundo dia deve ser destinada à Igreja de São Francisco (um dia é pouco para conhecer tudo que ela tem a mostrar) e visite o Claustro de seu mosteiro. Este pátio interno era decorado em sua totalidade por elaborados painéis de azulejos pintados por missionários Jesuítas e Beneditinos. Além de belíssimos como obra de arte, os temas utilizados são também muito interessantes, por fornecerem um exemplo das tentações, devoções e angústias que  freqüentavam a mente das pessoas naquela época. Cada painel é uma história completa, com temas que cobrem desde a agricultura à avareza, da certeza da morte à virtude, da disciplina à filosofia. Nessa mesma igreja, logo na entrada, não deixe de observar a pintura do teto. A noção de perspectiva é perfeita. Ande olhando para cada um dos detalhes do teto. Eles te acompanham.

Um dos maiores encantos da Bahia é justamente esta sua capacidade de unir história, cultura, tradições, religiões e paisagens, formando um mosaico que não encontra concorrentes em lugar algum. É uma terra para se visitar muitas vezes, e à cada uma delas aprender um pouquinho mais sobre nossa história e nossa gente.

Nos próximos artigos falarei um pouco sobre as praias (Arembepe – o lugar mais lindo que já conheci!), sobre a população, sobre o candomblé, sobre surpresas boas e ruins. Até lá.

UM POUCO SOBRE A HISTÓRIA DE SALVADOR

Fundada em 29 de março de 1549, Salvador foi a primeira capital do Brasil, posição que manteve durante 214 anos (1549-1763).

A Baía de Todos os Santos era conhecida pelos navegadores portugueses desde 1501. Sua localização estratégica na costa brasileira propiciava as ligações Portugal – Brasil – África – Ásia e a eqüidistância entre as regiões Norte e Sul do Brasil, aliada às condições requeridas para o abrigo seguro e a correta manobra das embarcações. Tudo isso determinou a sua escolha como local ideal para a construção da capital do Brasil.

O conjunto arquitetônico colonial de Salvador é de grande importância para a História, possuindo inclusive o título de “Patrimônio Histórico e Artístico da Humanidade” conferido pela O.N.U – Organização das Nações Unidas.

Ao longo dos três primeiros séculos posteriores ao descobrimento do Brasil, Salvador – Capital entre 1549 e 1763 – serviu de palco dos acontecimentos mais marcantes do País e se transformou na principal localidade do Atlântico Sul.

Em 1501, uma expedição de reconhecimento à terra descoberta por Pedro Álvares Cabral deparou-se com uma grande e bela baía – batizada de Baía de Todos os Santos pelo navegador Américo Vespúcio, por ter sido descoberta no dia 1º de novembro. O grande golfo tornou-se, então, uma referência para navegadores, passando a ser um dos pontos mais conhecidos e visitados no litoral do Novo Mundo.

Alguns registros históricos da época relatam ocorrências, como a saga do português Diogo Álvares, em 1510. Náufrago de uma nau francesa, ele foi acolhido pelos indígenas Tupinambás da região e chamado de Caramuru. Posteriormente, tornou-se membro influente da comunidade, formou as primeiras roças de cana-de-açúcar e algodão e casou-se com uma índia, batizada com o nome de Catarina Paraguaçu (filha de um cacique da tribo Tupinambá).

Caramuru desempenhou importante papel na implantação do Governo Geral. Em 1549, o rei de Portugal D. João III nomeou o militar e político Tomé de Sousa para ser o governador-geral do Brasil e decidiu enviá-lo para a missão no dia 12 de fevereiro do mesmo ano. A armada, capitaneada pela nau Conceição, trazia mais de mil pessoas em seis embarcações: as naus Conceição, Salvador e Ajuda, duas caravelas e um bergantim. Depois de 56 dias, a esquadra aportou no porto de Vila Velha – fundada pelo donatário da capitania hereditária da Bahia, Francisco Pereira Coutinho – e foi recebida com festa pelos Tupinambás e por Caramuru.

Tomé de Sousa ficaria no cargo até 1553, quando voltou à Lisboa e foi substituído por Duarte da Costa. Em 1550, a Capital viu os primeiros escravos chegarem nos navios vindos da Nigéria, Senegal, Angola, Moçambique, Congo, Benin e Etiópia. Com o trabalho dos negros, a cidade prosperou por influência econômica das atividades portuárias e da produção de açúcar, do fumo e do gado do Recôncavo.

Em 1583, Salvador tinha duas praças, três ruas e cerca de 1.600 habitantes. A riqueza da Capital atraiu a atenção de estrangeiros, que promoveram expedições para conquistá-la, já que participou do ciclo da mineração como provedora de víveres e escravos. Durante 11 meses – de maio de 1624 ao último dia de abril de 1625 -, Salvador ficou sob ocupação holandesa.

Em 1638, mais uma tentativa de invasão (desta vez de Maurício de Nassau) não obteve êxito. Salvador permaneceu na condição de Capital da América Portuguesa até 1763, quando este foro foi transferido para a cidade do Rio de Janeiro.

Porém, a capital baiana preservou sua importância econômica, histórica e cultural e, em 1808, recebeu a família real portuguesa – em fuga das investidas de Napoleão na Europa. Nessa ocasião, o príncipe regente D. João abriu os portos às nações amigas e fundou a escola médico-cirúrgica, que viria a ser a primeira faculdade de medicina do País.

A consciência libertária da população de Salvador deu origem a vários movimentos de contestação, com destaque para a Conjuração dos Alfaiates, em que um grupo de revoltosos inconformados com o domínio português, tentou fundar a República Baiense.

Em 1823, mesmo depois da proclamação da Independência do Brasil, a Bahia continuou ocupada pelas tropas portuguesas do brigadeiro Madeira de Mello. No dia 2 de julho do mesmo ano, o exército nacional entrou na cidade pela Estrada das Boiadas, atual Liberdade. A data passou a ser referência cívica dos baianos, comemorada anualmente com intensa participação popular.

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